4.9.10




: golo, por santiago nazarian




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Echando unas venciditas con Santiago Nazarian, Madrid, 2010.





Santiago Nazarian

"Uma vez questionei Golo sobre seu tênis. Era um Converse velhíssimo, que ele nunca se precupava em lavar. Sugeri que, já que seus quadros estavam vendendo tão bem, quem sabe não seria uma boa hora de comprar novos sapatos. Golo ficou ofendido. Ofendeu-se tanto que nessa noite não trepamos. Usou de desculpa a cocaína que nos restava e foi dormir no sofá."

(Trecho de Temporada de Caza para el León Negro - de Tryno Maldonado, em tradução ligeira minha.)


Acabei de ler dois dos escritores que conheci em Madrí: Tryno Maldonado (México) e Juan Sebastián Cárdenas (Colômbia). Rapazes bacaníssimos, que confesso que já torcia para gostar dos livros. Do Maldonado inclusive eu comprei, e - ufa - foram leituras mais do que prazerosas. Por isso estão aqui.

Temporada de Caza para el León Negro é uma declaração de amor a um personagem. "Golo" é um jovem artista plástico cocainômaco, anárquico e autista - que equilibra sensibilidade e poesia com uma futilidade estúpida. Mais do que a figura de um excêntrico, é um retrato (abstrato) de nossa geração (a "Geração Atari", como Maldonado coloca no livro), então o livro se torna uma visão afetiva de nossos valores e ideais.


O livro é estruturado em parágrafos curtos isolados, descrevendo Golo e sua ascenção do anonimato ao topo do mercado das artes plásticas. O narrador é seu namorado, mas não chega a ser um personagem. É um narrador que se oculta e se anula em favor de seu muso. O mais interessante é que, por mais que seja daqueles livros perfeitos para se apaixonar pelo protagonista, não aconteceu comigo. Apaixonante para mim foi a paixão narrada, mas o tal de Golo eu achei... um ser desprezível... e levemente asqueroso. Não consegui nem imaginá-lo fisicamente atraente. Sinal de que Maldonado criou algo vivo, aberto à cada leitura.


Eu não uso marcador de páginas. Insisto em apenas tentar memorizar o número da página em que parei. Nem sempre dá certo. E nesse livro, em especial, com parágrafos isolados se repetindo, eu me pegava achando que estava relendo uma página já passada, então pulava para frente, percebia que estava pulando páginas. Fui lendo e relendo fora de ordem, o que não me pareceu fazer diferença para a estrutura do texto e reforçou a sensação do livro próprio.


Uma graaaaaaaaande experiência de leitura.